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Água que não acaba mais

Estudos  mostram que o Aquífero Alter do Chão pode ser o maior  manancial subterrâneo do mundo, com capacidade de  abastecer a população mundial por três séculos.  Pesquisadores alertam para a necessidade de uso  sustentável.

A Região Norte é, sem dúvida, um dos maiores símbolos  da riqueza natural encontrada no Brasil. Agora, além de  abrigar a Floresta Amazônica e o Rio Amazonas, ela pode  ser conhecida por possuir a maior reserva mundial de  águas subterrâneas. Estudos realizados pela Universidade  Federal do Pará (UFPA) e da Universidade Federal do  Ceará (UFC) apontam que o Aquífero Alter do Chão,  localizado sob os estados do Pará, do Amazonas e do  Amapá, pode ser o maior do planeta.   A hipótese é baseada em dados ainda iniciais, mas  fortes o suficiente para entusiasmar os cientistas. Eles  indicam que o aquífero detém um volume de água que  alcança 86.400km“ (86,4 trilhões de litros), o dobro da  quantidade encontrada no Aquífero Guarani - localizado  entre Brasil, Paraguai, Uruguai e Argentina e  considerado atualmente o maior manancial subterrâneo de  água doce do mundo, com 45 mil quilômetros cúbicos.   

Os pesquisadores envolvidos nos estudos acreditam que  o Alter do Chão poderia abastecer a população mundial  por 300 anos. "A existência desse aquífero já era  conhecida há vários anos, mas não havia estudos  comprovando seu potencial. Não temos dúvidas de que se  trata do maior aquífero do mundo", afirma Milton Matta,  geólogo da UFPA que participa da equipe técnica que  analisa o manancial.   A equipe de pesquisadores - formada ainda pelo  professores Francisco Matos de Abreu, André Montenegro  Duarte e Mário Ramos Ribeiro, da instituição paraense, e  Itabaraci Cavalcante, da UFC - tem indicativos técnicos  que comprovam o potencial de uso das águas do Alter do  Chão, como a menor vulnerabilidade a contaminação e a  maior facilidade de extração do líquido.   Matta explica que, entre a superfície e o Aquífero  Guarani, há uma formação de rochas basálticas muito  antigas, repletas de fraturas verticais que se tornam  caminho fácil para contaminantes atingirem a água,  tornando-a mais poluída. Além disso, essas rochas são  mais duras e espessas, dificultando o acesso.   Já o Alter do Chão é recoberto por rochas  sedimentares formadas por arenito e argilito. O primeiro  material possui poros onde a água fica armazenada,  permitindo um bombeamento mais fácil. Já o argilito, que  fica sobre a água, é um protetor natural, que impede  contaminantes de atingirem o aquífero. Ou seja, além de  mais fácil de ser retirada, a água do reservatório da  Região Norte é mais limpa. "É uma água de muito boa  qualidade, que não precisa de estação de tratamento",  afirma o geólogo.   

Outro aspecto destacado na pesquisa é a espessura do  manancial, que vai de 500m a 600m, enquanto a do Guarani  tem em média 300m. "Isso quer dizer que temos quase o  dobro de água armazenada do Alter do Chão em relação ao  Guarani", comenta Matta. Os pesquisadores, no entanto,  ainda não determinaram com precisão razoável as  profundidades do aquífero do Norte.   Financiamento   Depois dos estudos preliminares, os técnicos preparam  um projeto para apresentar ao Banco Mundial e a outros  financiadores para viabilizar um levantamento mais  detalhado sobre o potencial do aquífero. A intenção é  obter dados para comprovar definitivamente que se trata  do maior reservatório subterrâneo de água doce do  mundo.   O custo desse levantamento está orçado em US$ 5  milhões. Segundo Matta, o valor representa a sexta parte  do que foi investido no Aquífero Guarani nos últimos  cinco anos.   "Depósitos de águas subterrâneas são reservas  estratégicas para mais da metade da população paraense.  Eles precisam ser conhecidos para que possam ser usados  com sustentabilidade. São um patrimônio inalienável da  nação brasileira", justifica o pesquisador. Ele lembra  que o Alter do Chão hoje abastece cidades como Manaus e  diversos municípios do Pará, como Santarém.

Para o gerente de Águas Subterrâneas da Agência  Nacional de Águas (ANA), Fernando Roberto de Oliveira,  um estudo sobre o Aquífero Alter do Chão é essencial  para o abastecimento brasileiro.   "A Bacia Sedimentar do Amazonas potencialmente  comporta grandes aquíferos, sendo que alguns deles podem  estar interligados, podendo configurar um grande  sistema, sendo inicialmente denominado Sistema Aquífero  Amazonas. O Alter do Chão seria um dos aquíferos desse  sistema", explica.   Quanto às vantagens oferecidas pelo Alter do Chão,  Oliveira afirma que o conhecimento sobre suas dimensões  e reservas ainda é pequeno. "Porém, as prospecções  iniciais indicam volumes de água armazenados muito  elevados, podendo constituir um aquífero estratégico  para a região, em que pese a grande disponibilidade de  águas superficiais." Oliveira diz que a ANA está  preparando edital de licitação para contratar empresa de  consultoria para elaborar estudos geológicos sobre o  Alter do Chão.

(Sílvia Pacheco) (Correio Braziliense, 27/4)      



Notícia publicada em 27/05/2010.








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