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“Há cidades passando sede, 'sentadas' em cima de aquíferos", destaca presidente da ABAS

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José Paulo Godói Martins Neto, geólogo, presidente da Associação Brasileira de Águas Subterrâneas (ABAS) e consultor da UNESCO para assuntos sobre águas subterrâneas.

Encontradas naturalmente ou artificialmente no subsolo, as águas subterrâneas se apresentam em grande quantidade no planeta, mas o processo para a sua captação não é tão simples em razão do aprofundamento dos lençóis freáticos ou da presença de rochas mais difíceis de serem perfuradas.

Na entrevista especial, José Paulo Godói Martins Neto, geólogo, presidente da Associação Brasileira de Águas Subterrâneas (ABAS) e consultor da UNESCO para assuntos sobre águas subterrâneas, destaca que o Brasil poderia utilizar uma maneira melhor estes recursos para prover um melhor abastecimento à população.

Web Rádio Água - Quais são os principais desafios em relação às águas subterrâneas do Brasil? Elas tem sido mau utilizadas?

José Paulo Godói Martins Neto - Nós temos um desafio imenso na questão da água não só no Brasil, mas em todo o mundo. A água hoje é um produto escasso em muitas regiões. Temos uma concentração de população em regiões onde não se tem volume de água suficiente para abastecer essas populações. Onde entram os poços nisso? Hoje a gente vê no Brasil, uma crise hídrica, uma deficiência que está forte no Distrito Federal e avançando para o Nordeste, existem alguns que dizem que o problema da escassez está migrando e subindo, passando por São Paulo, está subindo para a Bahia em direção ao Nordeste e está agravando o problema. E os poços podem sim entrar como uma fonte segura de abastecimento de água? Podem! Os postos não tem uma relação direta com essa questão da água superficial (se não chover hoje, não vai ter águas de poços amanhã), existem tempos e trânsitos nos aquíferos que protegem a gente quanto a essa questão da interferência. Eu posso ter exploração de poços em regiões que hoje estão consideradas sem água superficial áridas e posso ter poços sendo explorados com vazões conhecidas, estudadas e principalmente sustentáveis. Eu uso sempre o exemplo do Piauí, que a gente tem cidades inteiras sentadas em cima de aquíferos, que podem produzir poços de 100, 200, 300 mil litros por hora, e passando sede. Então os poços podem sim contribuir de maneira ordenada, em minimizar esses efeitos dessa crise hídrica, dessa falta de água superficial? Sim!

WRA - E nos grandes centros, os poços também podem contribuir para o abastecimento, sobretudo durante os períodos de estiagem?

JP - Também podem! A Sabesp tem entorno de 1000 poços, a Copasa de Minas Gerais tem entorno de 1200 poços, a Sanepar, na última informação tinha em torno de 1500 a 1700 poços. As empresas de saneamento contam com um número importante de poços também. Elas usam água superficial e usam água subterrânea nos abastecimentos. Do ponto de vista de utilização, dados do IBGE mostram que em torno de 49% da população brasileira é abastecida por água subterrânea. Então a água subterrânea é uma fonte muito importante no abastecimento. Se fala no uso regular e no uso irregular também. A ABAS luta sempre para que haja um uso regular e ordenado da água subterrânea. Para que isso? Para que tenhamos conhecimento dos dados dos usuários, e possa fazer uma gestão ordenada disso. Então a água pode ser superficial, pode ser subterrânea, e eu defendo também que a gente faça o uso do misto (superficial e subterrânea). Ambos sistemas são permitidos. Em regiões mais críticas, a gente pode e deve fazer esse combinado. Os poços também podem ser utilizados como sistemas de recarga. No Nordeste, os rios acabam recarregando os aquíferos, e na época de seca esses poços são explorados aproveitando essa água de recarga.

Cada vez é maior o número de poços perfurados de maneira clandestina.
WRA – Para muitos, a perfuração de poços pode interferir no agravamento da crise hídrica. O que o Sr. tem a dizer sobre isso? 

JP - Não é verdade! Os poços pouco afetam o sistema de abastecimento ou esgotam os aquíferos, que é outra coisa que muito se fala, mas pouco se comprova. O uso desordenado e ocupação do solo causam danos muitas vezes maiores do que a operação por poços. Há trabalhos publicados e estudos, como um da Bahia, em que se demonstrou que a mudança de cultura para pastagem e o desmatamento criou um efeito de rebaixamento dos aquíferos muito maior do que se explorasse toda aquela água dos poços. O poço, a água subterrânea, se utilizada de maneira ordenada, é uma fonte super segura, estável e que pode ajudar sim a superar essas dificuldades e momentos mais críticos que o Brasil vem vivenciando e que afetou fortemente São Paulo em 2014 e 2015 com a crise hídrica.

WRA - Qual a expectativa do segmento em relação ao Fórum Mundial da Água de 2018?

JP - O Fórum deve tratar questões ambientais e de uso de água subterrânea e água superficial. Qual é a nossa preocupação? Há alguma correntes hoje contra a perfuração de poços e contrárias às águas subterrâneas no Brasil, com legislações criadas de forma a impedir o uso de poços e outros detalhes nesse meio. Qual é a discussão para o Fórum? Discutir isso abertamente, de frente. Discutir essas questões, onde (as águas subterrâneas) podem ser aproveitadas, onde não podem ser aproveitadas, de que forma, se existe algum motivo para alguma restrição de uso. Porque se prega que deveria fazer uma restrição geral de uso de água subterrâneas no Brasil. O que não é verdade. Você tem populações passando sede, sentadas em aquíferos que podem abastecer por centenas ou milhares de anos. A discussão é: uso racional, gestão integrada… essas são bandeiras que iremos levar ao Fórum Mundial da Água. Já estamos começando a nos movimentar. Nós tentamos via ABAS, quantificar isso, mas já se fala em sermos uma indústria de um milhão de empregos, praticamente nacional (99% nacional), e que sofre com processos legais e interferências, muitas vezes sem o embasamento científico.

Segundo o presidente da ABAS, os poços podem ser utilizados como sistemas de recarga.


WRA - Como está a situação dos nossos aquíferos? Eles têm sido afetados pela perfuração de poços clandestinos?

JP - Os poços clandestinos realmente são um problema. Há alguns anos atrás, em São Paulo, por exemplo, existiam cerca de 18 mil poços clandestinos. Hoje se fala em 25 mil, com 2,7 mil poços regulares. Há regiões com 80%, 90% de poços clandestinos. Os problemas dos poços clandestino são: falta de controle de qualidade na perfuração, falta de controle da qualidade da água que é utilizada, superexploração dos aquíferos. No poço clandestino não se preocupam se perfurar um a cada 20 ou 30 metros, ou prédio a prédio como acontece, entrando num sistema de exploração em regime de interferência, quando o que eu estou retirando de água é a maior do que a capacidade do aquífero em repor essa água. Os nossos aquíferos de forma geral, como o Guarani, têm alta produção de água, que abastecem municípios inteiros. O que a gente precisa é ter uma exploração mais ordenada, melhorando a gestão disso. Para isso, é preciso conhecer os poços. Trazer um cliente ilegal para legalidade, na verdade, estamos protegendo ele, porque o próximo posso ilegal pode afetar esse primeiro usuário. Quando tivermos um sistema em que conhecemos esses poços, termos esses poços regulares e acompanharmos essa exploração, podemos tomar medidas de gestão, visando a proteção dos próprios aquíferos. E com a proteção dos aquíferos, a proteção dos usuários. Não existe qualquer embasamento técnico que 'diga' que se deve parar com perfuração ou restringir perfuração indiscriminadamente. Qualquer critério técnico, em relação à restrição de perfuração, é baseada no conhecimento dos aquíferos ou a algumas regiões. Aqui não posso perfurar por que é uma área contaminada? Sim. Mas não se pode pensar em restrições genéricas para o Brasil, que é continental, baseadas em informações como 'estamos rebaixando os aquíferos'. Nada disso tecnicamente é verdade. Pelo contrário. Os poços são maneira de preservar inclusive as águas superficiais. No Brasil se fala hoje em 200 mil poços. É um número muito importante. Então devemos pensar nisso com um pouco mais de critério técnico, avaliarmos com cuidado para poder tomarmos decisões e preservar tanto a água subterrânea como a água superficial.

 

Fonte: Web Rádio Água



Notícia publicada em 28/03/2017.








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