Boletim Informativo da Associação Brasileira de Águas Subterrâneas Junho/2001 - Nº 115
   

Água: O Mito da Abundância

"Uma ação de gerenciamento dos nossos recursos hídricos mais ética, ecológica e sócioeconômica, nos livraria da situação vexatória da falta de água de beber"

     O Brasil ostenta a maior descarga média de longo período de água doce do mundo nos seus rios (5.610 km3/ano gerados no seu território). Entretanto, como sua distribuição é, regra geral, nada compatível com aquela da população, o conceito de potencial de água por habitante vem sendo universalmente mais utilizado. Assim, dividindo-se esse potencial pela população de perto de 170 milhões de habitantes (IBGE, 2000), resulta num potencial de água doce nos seus rios da ordem de 33.000 m3/hab/ano, valor que coloca o Brasil na classe dos países ricos de água doce, tal como os Estados Unidos e o Canadá.
     Por sua vez, este critério permitiu as Nações Unidas (1997) verificar que, regra geral, entre 1.000 e 2.000 m3/hab/ano são suficientes para usufruto de um desenvolvimento sustentado com boa qualidade de vida nas cidades.

     Assim, dividindo-se a descarga média anual de longo período dos rios de cada uma das unidades da federação - 26 Estados e um Distrito Federal - pelas respectivas populações (IBGE, 2000), tem-se que os potenciais de água doce nos rios do Brasil variam entre 1.137 m3/hab/ano (Pernambuco) até mais de um milhão m3/hab/ano (Roraima). Além disso, a utilização de apenas 25% das taxas de recarga dos 112.000 km3 de água subterrânea que ocorrem em mais de 90% da área do território nacional - equivalentes às descargas de base dos seus rios perenes - já representaria cerca de 5.000 m3/hab/ano. Apenas nos 600.000 km2 de rochas cristalinas subaflorantes do Nordeste semi-árido, os potenciais de água subterrânea são de tal forma fracos e as taxas de recarga anual escassas, que os rios dessa área são temporários.
    Portanto, uma ação de gerenciamento dos nossos recursos hídricos mais ética, ecológica e sócio-econômica, nos livraria da situação vexatória da falta de água de beber. Basta lembrar que no Centro Oeste dos Estados Unidos ou em Israel - cujos potenciais variam entre menos de 500 e 1.000 m3/hab/ano e de menos de 500 m3/hab/ano, respectivamente,e com climas do tipo árido com um coração desértico - o gerenciamento dos seus recursos hídricos deu suporte ao desenvolvimento da maior economia já existente nestes contextos climáticos.
    No Brasil, os dramáticos quadros da falta d'água de beber nas cidades, resultam, fundamentalmente, da combinação de três fatores principais: 1) o seu fornecimento ser pouco eficiente; 2) serem grandes os níveis de desperdícios do uso doméstico e agrícola, principalmente; 3) a degradação da qualidade - que é engendrada pelo lançamento de esgotos não tratados nos rios e pela falta de coleta da maior parte do lixo que se produz - ter alcançado níveis nunca imaginados. Vale destacar que todos estes problemas são sensivelmente agravados pela falta de água para geração de energia hidroelétrica, o que paralisa as captações de água nos rios, as estações de tratamento e as bombas dos poços, principalmente.
    Assim, o mito da abundância de água doce no Brasil - tanto para uso doméstico, agrícola ou produção de energia elétrica - resulta, fundamentalmente, da falta de uma ação proativa das Agências Reguladoras do setor, cujo objetivo principal seja o uso cada vez mais eficiente da gota d'água disponível - superficial, subterrânea ou de reuso - como compromisso ético, ecológico e sócio-econômico.

Aldo da C. Rebouças
Prof.Titular Colaborador Inst.de
Geociências, Pesquisador Inst.
Estudos Avançados-Universidade
de São Paulo, Consultor
Secretaria Nacional de
Recursos Hídricos, Superintendência
de Recursos Hídricos da
Bahia


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